Como a Partilha Entre Gerações Fortalece Relações, Emoções e Caminhos de Vida

Ontem vivi uma experiência linda de sentir do simples ato de escutar alguém de verdade — e que, de certa forma, me deu coragem para terminar este texto que me acompanhava há meses, inquieto como um pássaro preso no meu pensamento. Cheguei a sonhar com este artigo, como se já existisse dentro de mim antes de ser escrito. Encontrei uma jovem com quem tinha cruzado caminhos apenas de passagem no passado. Não lhe posso chamar amiga, mas também seria injusto tratá-la como simples conhecida. É alguém ligada a uma grande amiga minha — essa amiga que, não sei como nem por onde anda, mas imagino-a bem, algures num canto do mundo, a partir corações como quem espalha tempestades doces.

E continuando a falar da jovem que inspirou todo este relato: alguém que sempre senti como especial, sem saber explicar porquê. No nosso reencontro, ela abriu o coração e partilhou comigo uma história marcada por confusão emocional, esperança e desencanto — sentimentos universais que muitos reconhecem, mas poucos admitem em voz alta. Falou com uma sinceridade crua, daquelas que não se ensaiam. E, enquanto a escutava, senti algo profundo e perturbador: era como se eu fosse amigo de uma das mulheres que, no passado, também magoei; como se, de repente, estivesse ali sentado a ouvir a versão feminina das minhas próprias falhas. Cada palavra dela caía dentro de mim como um espelho, vivendo em mim tudo o que ela dizia, e num instante, vi-a também como vejo a minha filha mais nova — ainda tão pequena — e pensei: um dia ela também pode viver algo assim… o que poderei eu fazer para ajudar? Não apenas a ajudar a ela, nem apenas a minha filha, mas a toda uma geração que cresce a tatear no escuro afetivo de um mundo apressado e confuso. Qual pode ser a minha contribuição real? Mas voltei ao presente, às palavras que saíam daquele coração tenso e luminoso, e continuei a escutar.

E o relato dela fez-me pensar. Fez-me pensar na forma como homens e mulheres parecem condenados a repetir os mesmos erros — em todas as idades, em todos os cenários. Fez-me pensar na dificuldade que temos em aprender com o que dói. E no tabu persistente de falar com honestidade sobre amor, intimidade, desejo e limites.  Às vezes é como se o próprio universo mantivesse certas lições suspensas no ar, obrigando-nos a reviver a mesma história até ao infinito — como se, apesar de tanto sofrimento, nunca crescêssemos verdadeiramente, nunca aprendêssemos o essencial. E foi então que lhe disse, silenciosamente, dentro de mim:

Amiga de coração limpo e ingenuidade luminosa, tu és uma das flores raras deste mundo.
Aquelas flores que ainda acreditam no romantismo, mesmo quando o mundo as tenta convencer do contrário. Há quem te veja como ingénua — talvez até como uma “tótó”, como dizem — mas eu gostaria que soubesses que aquilo que tens é precioso: tu queres que te vejam por dentro, que quem te deseja deseje primeiro a tua alma e não o teu corpo. O mundo está cheio de predadores silenciosos: homens que se aproximam com boas maneiras calculadas, com palavras ensaiadas, com gestos estudados. Mas há uma forma quase poética de os desarmar: fazer-lhes acreditar que já caçaram, para depois deixá-los perceber — tarde demais — que afinal foram eles os caçados. É nessa revelação que compreendem que precisam aperfeiçoar as suas armadilhas — não para caçar melhor, mas para se tornarem melhores homens.

O mais bonito, porém, não foi a dor que ela partilhou — foi a pureza com que, no meio dessa dor, ainda procurava sentido. A forma como ainda acreditava no amor. E a gratidão com que me disse que falar comigo a ajudara a organizar as ideias, a respirar de novo, a ver com clareza aquilo que o coração não queria ver.

Acredito, profundamente, que ainda existem almas assim: ingénuas no melhor sentido, sensíveis, luminosas, capazes de procurar a felicidade sem perder a dignidade. Mulheres que guardam o corpo como se guarda uma casa sagrada, onde a entrada se conquista com respeito. Mulheres que desejam ser vistas não apenas pelo rosto, mas pelo invisível — pelo encanto silencioso do coração. E se houver problema com isso nunca será dela, o problema será de que apareça um homem que a mereça. E pergunto-me:
Quanto tempo precisamos para conhecer alguém?
A resposta não está no calendário, mas na verdade emocional. Um minuto honesto vale mais do que cem dias de máscaras. Se ontem aprendi alguma coisa, foi isto: a escuta transforma. A conexão cura. E, às vezes, o destino aproxima duas pessoas não para começarem algo novo, mas para se reconhecerem — e, nesse reconhecimento, encontrarem uma parte de si mesmas.

Um segredo que os homens raramente admitem

Há algo que quase nenhum homem gosta de confessar, mas que precisa de ser dito com clareza: Os homens mostram sempre a sua melhor face no início. Uns são mais pacientes do que outros — mas a paciência, hoje em dia, é um diamante raro, quase extinto. Poucos têm paciência para conquistar uma alma; querem apenas alcançar depressa aquilo que desejam. E, enquanto esperam, mantêm opções. Iludem, seduzem, prometem.
Alguns conseguem enganar durante algum tempo, mas há um momento inevitável: as mulheres sentem.
Sentem a distância, a frieza, o vazio. São quase instintivas a detetar o desinteresse — percebem antes mesmo de haver palavras.  E por mais que os homens se vejam como caçadores, no fim são sempre caçados — não pela mulher que desejam, mas pela mulher que está disposta a tê-los. É por isso que existe um ditado antigo, duro e quase verdadeiro: “O homem está com quem pode e a mulher está com quem quer “

No caso da jovem que me contou a sua história, ela não quis entregar o corpo porque o coração pedia calma, respeito, tempo. E eu, com a experiência da minha própria vida, senti claramente que aquele homem estava a perder a paciência — queria apressar a intimidade porque acreditava que isso lhe daria a sensação de conquista. Mas apareceu outra que lhe deu o que ele queria — e, naquele instante, perdeu o interesse pela dona deste relato tão sensível. Esse homem não é apenas ele. Ele representa a mentalidade masculina de todas gerações. E, ainda assim, há homens diferentes — poucos, mas existem. Como eu desejaria ter o poder de multiplicar esses poucos, de os espalhar pelo mundo, de alterar, pouco a pouco, a genética emocional da humanidade.

“Sempre acreditei que as experiências acumuladas ao longo dos anos — de vida, de trabalho, de afeto, de intimidade e até das nossas feridas — são a ferramenta mais poderosa para crescer e ajudar outros a crescerem connosco. Quando a experiência de quem já viveu se cruza com o coração curioso de quem está a começar, nasce uma forma rara de aprendizagem: humana, honesta e transformadora. E, no fim, é isso que mantém viva a ponte entre gerações — a capacidade de partilhar para que ninguém caminhe sozinho.”

Leave a comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *