A anorgasmia, muitas vezes descrita como uma disfunção sexual feminina que pode provocar sofrimento e frustração, tem sido estudada ao longo das últimas décadas sob diferentes prismas clínicos e psicológicos. Contudo, na minha experiência pessoal e no meu entendimento sobre a sexualidade, acredito que este problema deve ser olhado de outra forma: a mulher é, frequentemente, vítima não da sua própria incapacidade, mas da falta de sensibilidade, paciência e conhecimento do homem.
Para mim, não existe a chamada “mulher frígida” ou a ideia de que a mulher simplesmente não consegue ter orgasmos. O que existe, sim, são homens que não sabem proporcionar prazer, que não compreendem a complexidade e a riqueza do corpo feminino, que não se entregam ao tempo e à atenção necessários para que a mulher viva plenamente a experiência sexual. A anorgasmia, nesse sentido, parece-me muitas vezes mais um reflexo da incapacidade masculina do que uma limitação feminina.
Na minha vida íntima tive experiências que reforçam esta convicção. Houve duas mulheres com quem me relacionei que tinham grande dificuldade em atingir o orgasmo. Raramente o conseguiam, mas quando acontecia, provava que não se tratava de uma impossibilidade fisiológica. Havia fatores comuns entre elas: ambas fumavam e consumiam antidepressivos. Acredito que estes elementos tenham contribuído para reduzir a libido ou dificultar o processo de excitação. Mas é importante distinguir duas situações muito diferentes: a falta de desejo sexual, em que simplesmente não existe vontade de ter relações, e o desejo de ter sexo sem conseguir chegar ao orgasmo. Esta última situação, a meu ver, exige sobretudo compreensão, paciência e entrega do parceiro.
Na minha própria forma de viver a sexualidade, nunca vi a ejaculação como o objetivo final. Para mim, o prazer não se reduz a esse instante. Pelo contrário, encontro prazer em cada toque, em cada beijo, em cada carícia, em cada partilha de intimidade. E mais do que isso: o que realmente me dá prazer é sentir que a mulher está a sentir prazer. É nesse espelho do prazer dela que encontro a minha maior satisfação.
Por isso, acredito que o problema da anorgasmia, muitas vezes rotulado como uma disfunção feminina, deve ser repensado. Não se trata apenas de um diagnóstico clínico, mas de um reflexo das nossas práticas e da forma como os homens se relacionam com a sexualidade feminina. Se houvesse mais paciência, mais diálogo e mais vontade de aprender com o corpo da parceira, talvez muitas mulheres que hoje se sentem vítimas da anorgasmia pudessem simplesmente viver a plenitude do prazer.
Um exemplo de iniciativa inovadora….
Neste panorama mais amplo, não posso deixar de destacar uma iniciativa que considero interessante: a Escola para Homens, fundada e dirigida por Aline Castelo Branco. Trata-se de um espaço que procura justamente educar os homens a compreender melhor o corpo feminino, a desenvolver maior sensibilidade e a aprender técnicas que favoreçam a satisfação mútua. Vejo este projeto como uma boa iniciativa — e, na verdade, acredito que muitos homens beneficiariam em passar por uma formação deste tipo. No entanto, também quero deixar claro que há pontos com os quais não concordo totalmente. Nomeadamente, a promoção do consumo de medicamentos ou suplementos, ainda que naturais, como forma de melhorar a performance sexual.
Pessoalmente, acredito que a verdadeira base para uma vida sexual saudável deve ser sempre natural: cuidar do corpo através do desporto, manter uma boa alimentação, cultivar a saúde mental e emocional. Estes, para mim, são os pilares fundamentais de uma sexualidade plena e duradoura. Assim, a Escola para Homens mostra um caminho inovador, que vai ao encontro do que sempre defendi: a sexualidade não deve ser centrada no desempenho masculino, mas na partilha, no prazer mútuo e na capacidade de o homem se dedicar a conhecer e valorizar o corpo da mulher.
“A verdadeira força reside em cuidar; quem conhece o compasso do prazer da parceira encontra na gentileza a chave da conexão que transforma desejo em harmonia.”
