O que me inspirou a escrever este artigo não foi apenas uma sensação de bem-estar. Foram dados concretos. Resultados clínicos que, ano após ano, não mostram sinais de deterioração — pelo contrário, mostram consistência e preservação. Tenho o hábito de realizar exames médicos gerais de forma regular, sempre no início do ano, como uma forma de perceber com que “capital” começo cada novo ciclo da vida. Os exames contam uma história, e a história que o meu corpo contou foi esta: não estou apenas a aguentar o tempo — estou a envelhecer com equilíbrio. Partilho esta reflexão não para gritar aos quatro ventos que estou melhor do que alguém, mas para lembrar algo essencial: a nossa saúde — mental, física e espiritual — é a nossa maior riqueza. Quando cuidamos dela, tudo o resto ganha outro sentido.
Mas mais importante do que os números em si é aquilo que eles representam e representam coerência entre hábitos, ritmo de vida e escolhas diárias, representam algo que não se aprende em livros de gestão nem em relatórios financeiros: “a ligação real entre corpo, mente e forma de viver e que nem tudo é mensurável, nem tudo cabe numa folha de Excel, mas tudo se sente”.
Durante muito tempo, como tantos outros profissionais, trabalhei para empresas, projetos e corporações que valorizam resultados trimestrais, crescimento infinito e produtividade constante. Em troca, entregamos tempo, energia e, muitas vezes, saúde, as empresas compram as nossas horas de vida — quase nunca perguntam como dormimos, como estamos ou quanto nos estamos a gastar por dentro.
Hoje, trabalho para a maior empresa da minha vida e nao é uma corporação é o meu corpo. Mas esta empresa é diferente de todas as outras. É única. Não se compara com nenhuma estrutura externa. E gera riqueza — não apenas para mim, mas também para aqueles que se cruzam comigo no caminho. Porque quando estamos bem connosco próprios, criamos naturalmente um espaço onde os outros também se sentem melhor. Isto não é arrogância. É consequência.
Durante muitos anos, confundi ambição com acumulação: trabalhar mais, ganhar mais, consumir mais. Fui educado a acreditar que isso era sucesso. Hoje sei que não é. A vida ensinou-me algo que nenhum cargo, bónus ou KPI ensina: a saúde não é um detalhe — é o ativo mais valioso que existe. E curiosamente, esta é uma verdade tão antiga que existe como ditado em praticamente todas as línguas do mundo… e mesmo assim continuamos a ignorá-la.
Foi apenas quando comecei a viver com menos — menos rendimentos, menos consumo, menos excesso — que comecei a ganhar algo muito mais valioso “saúde”, ouvi muitas vezes que me tornei “menos ambicioso”, “conformista”, que deixei de ter projetos de vida e quando dizia “não tenho tempo, tenho de ir ao ginásio”, alguns olhavam como se cuidar do corpo fosse um privilégio reservado aos ricos e a realidade é outra. Estou a acumular riqueza, só que de outro tipo. Riqueza é:
- acordar com clareza mental
- ter um corpo que responde
- sentir equilíbrio em vez de exaustão
- respeitar os limites do próprio organismo
- viver sem atropelar a vida dos outros habitantes deste planeta
Aprendi a ouvir o meu corpo, aprendi a escutar a minha mente, aprendi a falar comigo, a sentir, a parar quando é preciso. Os resultados clínicos apenas confirmaram aquilo que o corpo já vinha a dizer em silêncio. Não só abrandei processos de desgaste, como recuperei equilíbrio. Mas mais importante do que qualquer marcador é o que ele simboliza: quando há alinhamento interno, o corpo responde.
Nem tudo é mensurável, nem tudo cabe numa folha de Excel, mas tudo se sente e hoje sinto-me genuinamente feliz por ter esta consciência, como ser humano, é como usar uma coroa invisível. Como se a vida me tivesse oferecido algo que nenhuma corporação pode oferecer: mais tempo de vida com qualidade.
Nenhuma empresa me dará isso, nenhum cargo me garantirá isso, porque para as grandes estruturas, somos quase sempre apenas mais um número e não nos esqueçamos, a nossa maior empresa é o nosso corpo e o nosso projeto mais importante é a nossa vida. Podemos retirar a palavra “família” desta equação se quisermos ser mais universais — mas não podemos retirar a responsabilidade que temos connosco próprios.
Cuidar da saúde não é falta de ambição, é a forma mais elevada de visão a longo prazo e essa, ao contrário de muitos negócios, é uma estratégia verdadeiramente sustentável e como já ensinava Lao Tsé, há mais de 2.500 anos:
“Aquele que conhece os outros é sábio mas aquele que conhece a si mesmo é iluminado.”
Uma lição antiga mas mais atual do que nunca.
