Hoje estou a poucos dias de voltar a Portugal, e não é o calendário que marca esta espera. É o corpo e o corpo sabe sempre antes da mente. Sabe porque treme sem motivo aparente, porque a pele desperta como se fosse chamada pelo ar, porque a boca reage à memória precisa de outra boca que já não está aqui, mas que nunca partiu verdadeiramente. Há em mim algo que se move antes da razão, uma certeza antiga, animal e silenciosa, que não precisa de ser explicada. Cada célula reconhece o que está prestes a acontecer, como se o reencontro já tivesse sido escrito algures e o tempo, com a sua falsa autoridade, apenas fingisse surpresa.
Quando penso nela, tudo em mim se reorganiza. A respiração muda de ritmo, torna-se mais profunda, mais consciente; o corpo ganha uma atenção diferente, como se estivesse à escuta. Imagino-a novamente próxima, não como um pensamento distante, mas como uma presença quase física. Vejo-a a observar-me sem pressa, a percorrer-me com o olhar, a deter-se nos detalhes. O brilho nos seus olhos não era apressado nem tímido; era atento, avaliador, carregado de uma curiosidade que me deixava vulnerável e, ao mesmo tempo, intensamente vivo. Perto dela nunca fui apenas homem; fui instinto disciplinado, força contida, um corpo que sabe esperar. Nunca desejei momentos roubados nem urgências vazias. O que quis desde o início foi tempo, continuidade, entrega inteira.
E sei que ela sente o mesmo. Há algo profundamente viciante no corpo do outro quando dois corpos se reconhecem sem necessidade de explicação. Um vício silencioso feito de pele, de calor, de memória. Sinto o desejo dela não como pressa, mas como profundidade; como o desejo de quem quer ser tocada não apenas pelas mãos, mas pela presença inteira de quem está à sua frente. Ela não queria apenas sentir-se desejada; queria sentir-se escolhida. Talvez por isso a memória regresse agora com tanta nitidez, como se o corpo precisasse de se lembrar do que é capaz de sentir.
Lembro-me do primeiro dia em que combinámos sair como se o meu corpo ainda estivesse ali, à espera dela. Eram quase dezanove horas e eu já estava junto ao ginásio. Cheguei antes da hora marcada, não por nervosismo, mas por atenção. Aquela sensação íntima de que quando algo importa verdadeiramente não deve ser apressado nem tratado com descuido. Estava tranquilo, inteiro, aberto; não exigia nada ao destino, mas mantinha-me atento aos sinais e quando ela apareceu, tudo se alinhou.
Havia nela uma segurança serena, uma forma de caminhar que não pedia permissão ao espaço. O vestido preto que trazia não gritava sedução; afirmava presença. Quando entrou no carro, demorou o olhar em mim por alguns segundos, como quem sente antes de decidir, como quem mede a energia de um homem para perceber se pode baixar a guarda. Não era um olhar inocente. Era um olhar consciente, curioso, exigente.
Beijámo-nos de imediato um beijo firme, seguro, sem hesitações. Nesse gesto senti que ela apreciou a forma como a segurei, a firmeza dos meus braços, a ausência de pressa. Ela gostou da confiança silenciosa, daquela masculinidade que não precisa de se impor porque simplesmente está ali. O que despertou nela não foi urgência, foi curiosidade; o prazer subtil de se sentir desejada por um homem que sabe exatamente quem é.
Perguntou-me para onde íamos e respondi-lhe com a verdade: não sabia. Decidi no impulso, propus ir comer um gelado. Um gesto simples, quase inocente, talvez para lhe mostrar que não precisava de impressionar. Ela sorriu e disse que não tinha vontade de comer. Nesse instante percebi que estava ali para outra fome, mais profunda, mais silenciosa; uma fome de presença, de tensão, de reconhecimento.
Sentia-a observar tudo. Cada gesto meu era recebido, medido, sentido. Reparava na forma como ocupava o espaço, na postura do meu corpo, nos ombros largos, na segurança com que me movia. O olhar dela demorava-se, absorvia. Quando lhe propus, com a voz mais baixa, se queria ir a minha casa beber um copo de vinho, senti que algo nela reagiu de imediato. No seu olhar não houve surpresa, apenas um sorriso lento, quase felino, de quem já tinha decidido antes de responder. Quando disse que achava uma boa ideia, senti-a relaxar, como se tivesse encontrado o lugar certo para se permitir ser ela mesma.
Em minha casa tudo fluiu sem transição clara. O vinho foi apenas um pretexto; os copos ficaram esquecidos. Em algum ponto difícil de localizar, os nossos lábios encontraram-se e ali ela deixou de observar para passar a sentir. O beijo era intenso, mas controlado, e isso excitava-a de uma forma profunda. Sentia-se segura para se abandonar gradualmente, para deixar crescer o desejo sem medo. Os meus braços à volta do seu corpo transmitiam-lhe solidez; as minhas mãos exploravam com atenção, não para tomar, mas para conhecer. E ela respondia, consciente, presente, inteira.
Ela apreciava o meu corpo. Sentia-o na forma como as mãos dela percorriam o meu peito, como se detinham nos músculos, na firmeza construída com disciplina. Gostava da sensação de estar junto a um corpo masculino bem trabalhado, forte, quente. O olhar dela confirmava-o; havia admiração, havia desejo, havia orgulho silencioso em ser desejada por aquele corpo. Isso alimentava-me. Dava-me ainda mais vontade de a envolver, de a fazer sentir-se segura e escolhida.
Havia pausas propositadas. Momentos em que eu parava de propósito, e ela sentia essa suspensão como uma promessa, como uma tensão que a fazia querer mais. Quando a levei para o quarto, veio inteira, sem hesitação. A cama recebeu-nos como um espaço cúmplice. A música acompanhava-nos sem impor ritmo, e ela movia-se com uma liberdade que revelava uma intimidade profunda com o próprio corpo. Flexível, confiante, entregue, mas sempre atenta a mim, ao meu ritmo, à resposta que provocava em mim.
Gostava de perceber o efeito que tinha sobre mim. Gostava de sentir que me despertava, que me desorganizava, que me puxava para um lugar mais instintivo. E eu sentia o mesmo. O brilho nos seus olhos intensificava-se cada vez que percebia a reação do meu corpo ao dela. Era um jogo silencioso, intenso, profundamente íntimo.
O tempo perdeu estrutura. Os minutos encurtaram porque a ligação crescia. Cada instante tornava-se mais denso, mais carregado de sentido. Naquele corpo esbelto, cheio de energia, senti algo raro, como se o universo tivesse alinhado duas frequências exatas. Ela não era apenas desejo; era reconhecimento. E eu senti, com absoluta clareza, que ela também o sentiu.
Agora, a poucos dias de regressar, o corpo lembra-me de tudo isto com uma precisão quase cruel. O que vivemos não foi suficiente, mas foi necessário. Necessário para sabermos, sem promessas nem grandes declarações, que esta história não terminou ali. Algumas danças começam no corpo e continuam na memória; e há encontros que não se repetem porque, na verdade, nunca chegam a terminar……
